junho 30, 2006

Cite, na pessoa de sua representante legal, residente a rua tal, de numero tal; e suas lagrimas a manchar o papel. Para os atos e termos da ação proposta conforme petição por copia em anexo. Intime-se o réu advertindo-o de que terá prazo de quinze dias para oferecimento de contestação.
Maria, lavadeira, mãe de Gabriel, sozinhos no mundo, sem ter para quem correr, desespera-se ao ler o oficio. Não sabia do que se tratava. Era leiga referente às forças judiciárias e sentira no âmago a enorme dor da perda.

“Cumpra-se, na forma e sob as penas da lei”.

Que crime grave teria a lavadeira acometido?
Os dias, para Maria eram os mesmos. A labuta inicia-se logo cedo. O pequeno Gabriel, em seu pequenino leito, já desperto, clama pela mãe que está no lado de fora da casinha, com seus enormes tachos a coara as benditas roupas brancas. Doce mãe fraterna. As mães são seres imensuráveis, com vossos corações de leões. Pára o que se está fazendo. A manhã é fria, congelante. Seus dedos estão dormentes. Tudo é tão difícil. Adentra a estreita porta, com seu enorme sorriso e o recebe em seus braços, o pequenino descalço que está a chorar.
O choro, não é um bom sinal. O pequenino Gabriel acordou com medo. A mãe, o envolve e em pouco tempo, o calor do ventre materno acalma-o. Eram dragões, enormes dragões, que queriam levar o pequeno para longe da mamãe. Calma. Foi-se o pesadelo. E tudo voltou ao normal na casinha de Maria, tudo menos a intuição.
O almoço sai por volta das 11.30h. o menino de banho tomado, com o seu pequeno uniforme engomado, senta por sobre a mesa. O cheiro é bom. A comida fora preparada com carinho. O pequeno prato, levado a mesa, continha uma colher de arroz para uma de feijão, algumas batatas e um pedaço de carne. O menino sentiu-se feliz. No outro, havia o necessário, assim dizia, Maria. Era preciso apenas de algumas colheres do branco arroz para mantê-la. O relógio soou o meio-dia. Estava na hora de levá-lo a escola. E Maria, abandona o seu sacrificante dia e leva o pequeno Gabriel para a escola. Na volta, a intuição a perturba. O que será, Maria? O que te norteia tanto? Nada sabia os seus vizinhos. Maria, em uma outra vida, tivera um caso com um curador. A vida que levava, era lá por se dizer, estável. Morava em uma cidade grande, na casa de pai e de mãe, com alguns gatos e um cão guardoso. Filha exemplar do senhor Lineu.
Moça direita, de boa educação, de poucas economias, conheceu a desgraça aos 17 anos. Um jovem, de mesma idade apaixona-se por Maria. Mal sabia o triste desfecho que a esperava. Em encontros infortúnios, Maria concebe o redentor. A desgraça cai por sobre as famílias. Os anos passam, Maria carrega nos ombros uma criança. Carrega nos ombros a culpa. Carrega nos ombros a desdita. Maria cuida do pequeno Gabriel como ninguém. O pai ausenta-se e a mãe enlouquece. Maria, não tem para onde ir. A essa altura, forma-se o “Curador”, aquele que desdém o brasão no peito e impele Maria a lhe entregar o rebento. Maria sai de cena. Consegue viver mais uns anos em paz. Seis é a idade do pequeno Gabriel.

Ele, brasileiro, casado, curador, portador da cédula de identidade RG sob o numero tal, e devidamente inscrito no CPF sob o numero de tal, residente e domiciliado na comarca... Maria não contem as lagrimas. A citação veio em mãos de um oficial da justiça. Tempo em que foi levar o pequeno Gabriel a escola e no regresso mais uma vez o infortúnio bate a porta. Rubrica. Agradece, assim aprendeu com a educação que teve. Vira-lhe a costa, adentra o “lar doce lar”. Lê. Relê. E tão pouco consegue conter as lagrimas. Pensa em seu futuro, ressalva o passado e crucifixa-se ao ter em seu seio o filho, Gabriel Jesus de Nazaré Carrasco.

1 Comments:

At 2:10 PM, Anonymous Anônimo said...

A ficção vira realidade, ou a realidade vira ficção?

 

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