Clara e a crise dos sexos em: "Uma pausa para o Reveillon"
E o reveillon Maria Clara, e o reveillon?Janeiro, 7 de, 2007. Não é pra menos que o telefone está em pausa, daqui a umas horas, recomeça; -ô Maria Clara, eu preciso disso. -Maria Clara, o relatório daquilo. -Maria Clara leu a manchete? Buchucas e patavina! Raios e trovoadas...
-Está ocioso isso aqui. Será que dá pra ser mais rápido com o banho Alceu?
João Alceu, irmão consangüíneo de Maria Clara, a magnífica. As vésperas de um reveillon mal fadado, o irmão carcará de penas pretas, em vôo rasante, resolveu se alojar sobre a proteção da irmã mais velha. Generalista e oportunista, como um bom carcará, nem explicou direito o sucedido e por horas se fez a ocupar o 2º lugar necessário da vida da “nossa” protagonista, o “Living Room da Latrina”, vulgo banheiro.
-Ô Alceu, isso tudo é água escorrendo? Está me ouvindo? Alceu, você está chorando? Será que dá pra alguém me responder?
Sim. Alceu, João, Alceu! Não continha as lagrimas e os soluços e repete entre uma frase e outra, e todas desconexas, o famoso “porquê”.
-Porque? Meu deus! Porquê? Porque essa Marina, fez da flor de laranjeira, só quem viu...
-Alceu! A musica da Ivete não é bem essa, é, você confundiu! Eu não estou conseguindo acompanhar. Ah! Quer que eu ligue pra Marina pra avisar que você vai pra casa depois de desocupar meu banheiro?
A porta abre-se e nu, Alceu despenca a chorar...
-A Marina não presta! A Marina não vale a comida que ponho a mesa! Ela me traiu com a encomenda, com o peru! Alias, com o “peru”, dono da padaria. Ai! Eu não mereço! Anos de dedicação! Anos de ouvir as mesmas reclamações: -Meu cabelo, está amassado, quero uma chapinha nova Alceu... ou, -Alceu, sai desse sofá... ou, -não aperta a pasta de dente ao meio...
-Ai, Clarinha! Cansei! Eu que fui um tolo. Eu idolatrava aquela mulher! Eu adorava cheirar os vãos dos dedos do pé! Aqueles pezinhos, tão perfeitos!
-Écati! Alceu!
-Não interrompa! Você não sabe a dor que estou sentindo...
Tudo perfeito para a tão esperada véspera do ano novo. Época em que as famílias se reúnem em volta da mesa, para se confraternizarem. Época de mandar bilhetinhos anônimos, com a caligrafia que sempre a entregava. Época de soltar rojões, chacoalhar o champanhe e acordar seminu no apartamento do vizinho carente. É. Bons tempos... foram-se.
-Ta! Mais Alceu! Assim, não podemos ficar! O melhor a fazer é falar com a Marina.
-Ta maluca, hermana? Eu, não falo com aquela traíra nunca mais. O celular vai permanecer desligado e se ela ligar pra cá, eu não estou e fim de papo. Ou você está esperando por alguém?
- Ei, Alceu! Calma! Não é assim que anos de convivência vão junto com o recheio do peru! Opa! Desculpa a forma coloquial. E eu estou a esperar... um certo alguém.
Horas depois, próximo das 23h, toca o telefone...
-Era a Marina, Alceu! Ela está preocupada com você! Vou dizer que você está aqui.
-Não faça isso. Está querendo acabar com a nossa relação?
-Ô, Alceu! Deixa de ser infantil! Essa frase não cola desde a época do colégio. E sim, Marina! Ele está aqui, louco de saudades, querendo falar com você. Acho melhor você vir pra cá, ou melhor, tenho certeza! Vocês têm muito que conversar...
Poucas horas depois...
-Bem, vou me retirar. Vou usar o banheiro que meu irmãozinho querido fez questão de ocupar por horas! Vocês fiquem a vontade! Só tenham cuidado com o vaso da bisavó. Brincadeira! É, eu fico assim, mais engraçada nessas épocas do ano.
-Poxa! O que leva um casal discutir a relação por conta de um peru? Bem, na véspera? E eu? Eu que não tenho nenhum peru pra discutir! Caramba! Será que o vizinho do oito está disponível? É. Acho que não. Não o vi pela manha e esta ausente por uns dias. Com certeza, deve ter se arrumado. E meus amigos? Eles sempre estão por aí. Dessa vez, teve que ser diferente. Todos foram com suas respectivas famílias e me deixaram aqui. Abandonaram-me aqui! Largada as traças, eu fui. Papai e mamãe, sem comentários. É o primeiro ano, que estão a gozar de férias familiares. Estão super certos. E eu? Poxa! E eu? Será que vai rolar um peru? Tomara!
40 minutes later...
-Marina? Alceu? Vocês estão aí......?
-Ah! Vocês estão ai! É, pelo menos o vaso continua inteiro. Gostei da sua calcinha Marina! Me passa o nome da loja. Bom gosto, menina!
-Ai! Que vergonha! Nos desculpem, Clara.
-Não se incomodem! Há tempos que eu não uso o tapete da sala. Não uso pra nada mesmo. E o tapete está aí, pegando pó. Sendo pisado, apenas isso. Será que meu sobrinho nasce em outubro?
-Clara!
-Tá gente! Eu falei que eu fico um tanto espirituosa...
-Mais Clara! Já está próximo da meia-noite. O peru (a ave), está lá em casa esperando pra ser destrinchada! Venha conosco! E eu te passo o numero do fornecedor de calcinhas...
-Sabe o que é? É que a minha irmãzinha querida está esperando por companhia!
-É. Eu estava. Alias, não. Não estava. Quer saber? Vou com vocês. E quero saber tim-tim, por tim-tim, como é que se destrincha o peru...
...E assim, foi-se, o Reveillon de Clara Maria!
-Maria Clara! Maria Clara!
Oh, claro! rs


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