Julho 12, 2006

O amanhã de Maria, parte 4.

Ela mulher, uma guerreira, segue seu destino por traços sinuosos. Conforme ouvira a explicação do dia anterior, o itinerário era o advogado do largo São Bento.
Uma enorme ladeira. A rua começa na travessa Cruz Almada e termina no largo. De jeans surrado, camiseta de gola e sandálias de dedo, ela, Maria, tem a tira colo à bolsa, uma pasta com os seus documentos e alguns trocados para o dia. O bairro é central, a mais antiga das ladeiras. O dia está quente e Maria começa o calvário. Não era fácil subir a São Bento. Mulher de pouco peso e de muita coragem. Enfrenta com garra, Maria. Seus olhos seguem a linha do chão. Tenta não olhar para o alto, para não se intimidar. E a ladeira vai chegando ao seu fim. O numero 466 do largo. O horário passa do meio dia. Carros que circulam, pessoas com seus passos frenéticos, barulho, o caos. Mais uma vez o olhar de Maria sai de cena. O olhar desprendido e solitário, mancha uma paisagem distorcida, a venerar preocupações. Sente ser sufocada e pressionada por tudo aquilo. Sem voz para o mundo, sente em seu âmago o formar do clamor. É o final da rua, à frente o largo.
A estridente campainha faz a anunciação de Maria.
Uma senhora gorda é quem a atende. Adentra ao recinto a espera daquele que a representaria judicialmente. No jornal de hoje, o tema das grandes cidades, a violência. Uma guerra contra o estado, à morte de cabos, soldados e sargentos, substitui a vida dos civis, mais não poupa a vida humana.

Cabo PM Wilson de Jesus Santos morto no dia 13, separado uma filha.
Terceiro Sargento PM José Messias, morto no dia 13, casado, um filho.
Soldado PM do Corpo de Bombeiro João de Deus, morto no dia 13, casado.

Segue a nota.